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terça-feira, 9 de fevereiro de 2010

O Schabat – Seu significado para o homem moderno.


Além da civilização

Por Abraham Joshua Heshel.

A civilização técnica é o produto do trabalho, do exercício do poder pelo homem tendo em vista o ganho, tendo em vista a produção de bens. Começa quando o homem, insatisfeito com o que está disponível na natureza, empenha-se em uma luta com as forças da natureza a fim de intensificar sua segurança e aumentar seu conforto. Para usar a linguagem da bíblia, a tarefa da civilização é submeter a terra, ter domínio sobre a besta.
Quão orgulhosos nós ficamos amiúde ante nossas vitórias na guerra com a natureza, orgulhosos ante a multidão de instrumentos que conseguimos inventar, a abundância de mercadorias que temos podido produzir. Contudo, nossas vitórias vieram a assemelhar-se a derrotas. A despeito de nossos triunfos, caímos vitimas do trabalho de nossas mãos, é como se as forças que conquistamos nos tenham conquistado.
É nossa civilização um caminho para o desastre, com muitos de nós estão propensos a crer? É a civilização essencialmente um mal, para ser rejeitada e condenada? A fé do judeu não é um meio de sair deste mundo, mas um meio de estar dentro e acima deste mundo, não de rejeitar, mas de ultrapassar a civilização. O schabat é o dia no qual aprendemos a arte de ultrapassar a civilização.
Adão foi colocado no jardim do Éden, “para hortá-lo e guardá-lo” (gênesis 2:15). O labor não é o único destino do homem; ele é dotado da dignidade divina. Entretanto, depois de comer da árvore do conhecimento, ele foi condenado á labuta penosa e não apenas ao trabalho “tu tirarás dela o teu sustento a força de trabalho [...] todos os dias de tua vida” (Genesis 3:17). O trabalho é uma benção e a labuta penosa é a miséria do homem.
O Schabat, como dia de abstenção do trabalho, não é uma depreciação, mas uma afirmação do labor, uma exaltação divina de sua dignidade. Deves te abster do trabalho no sétimo dia é uma sequela do mandamento: seis dias hás labutar, e fazer todo o teu trabalho[i].
Seis dias tu deverás labutar e fazer todo teu trabalho; mas o sétimo dia é o schabat para o Senhor teu Deus”. Da mesma forma como somos ordenados a guardar o schabat, somos ordenados a labutar[ii]. “Ame o trabalho [...]” [iii]. O dever de trabalhar por seis dias é tanto uma parte do pacto de Deus com o homem, quanto o dever de se abster do trabalho no sétimos dia[iv].
Separar um dia da semana e destiná-lo à liberdade, um dia no qual não usaríamos os instrumentos que tem sido tão facilmente transformados em armas de destruição, um dia para estarmos conosco, um dia de separação do vulgar, de independência de obrigações externas, um dia em que nós deixamos da adorar ídolos da civilização técnica, um dia em que não usamos dinheiro, um dia de armistício na luta econômica com nossos semelhantes e com as forças da natureza – existe alguma instituição que oferece esperança maior para o progresso do homem do que o schabat?
A solução do problema mais debatido da humanidade não será encontrado na renuncia à civilização técnica, mas, na obtenção de algum grau de independência dela.
Com repeito a dádivas externas, à posses exteriores há uma única atitude correta – possuí-las e estar apto a independentes da civilização técnica; nos abstemos primordialmente de qualquer atividade que visa refazer ou homem em conquistar a natureza fica suspenso no sétimo dia.
Quais os tipos de labor que não devem ser efetuados no schabat? De acordo com os antigos rabis, são todos aqueles que forma necessários para construção e o apresto do santuário do deserto[v]. O schabat em si é um santuário que nós construímos um santuário no tempo.
Uma coisa é estar a correr ou ser impedido pelas vicissitudes que ameaçam a vida e, outra coisa, é permanecer quieto e aceitar a presença de um momento eterno.
O sétimo dia representa o armistício na cruel luta do homem pela existência, uma trégua em todos os conflitos, pessoais e sociais, a paz entre homem e homem, homem e natureza, a paz dentro do homem; um dia em que manipular o dinheiro é considerado profanação, em que o homem admite sua independência daquilo que é o principal ídolo do mundo. O sétimo dia representa o êxodo da tensão, a liberação do homem de sua própria confusão, a instalação do homem como um soberano no mundo do tempo.
No tempestuoso oceano do tempo e da faina há ilhas de quietude onde o homem pode entrar em uma enseada e recuperar sua dignidade. A ilha é o sétimo dia, o schabat, é um dia de desligamento das coisas, instrumentos e afazeres comuns como, também, de ligação com o espírito.
Todo o schabat deve ser despendido ‘em encanto, graça, paz e grande amor [“...] pois, nele, até o perverso no inferno encontra paz”. Constitui, portanto, um duplo pecado demonstrar cólera no schabat. “Não acendereis lume em todas as vossas casas no dia do schabat” (Êxodo 35:3), recebe o significado de que: “Não acendereis o lume da controvérsia nem o calor da cólera”[vi]. Não acendereis o lume – nem mesmo o lume da indignação justa.
Afora os dias nos quais lutamos e de cuja feiura padecemos, olhamos para o schabat como nosso torrão natal, como nossa fonte e destino. É um dia no qual abandonamos nossa atividades plebeias e recuperamos nosso estado autentico, em que podemos partilhar da bem-aventurança na qual somos o que somos, independente de sermos ou não eruditos, de nossa carreira ser um sucesso u um fracasso; é um dia de independência das condições sociais.
Durante a semana podemos ponderar e nos preocupar se somos ricos ou pobres, se tivemos êxito ou malogro em nossas ocupações; se cumprimos ou se pouco faltou para alcançar nossas metas. Mas quem poderia sentir-se aflito ao contemplar os lampejos espectrais da eternidade, exceto para sentir-se espantado ante a vaidade de estar tão aflito?
O Schabat não é um tempo para ansiedade pessoal ou preocupação, para nenhuma atividade que possa abafar o espírito de alegria. O schabat não é um tempo de lembra pecados, de confessar, de arrepender-se ou até de rogar por alivio ou por qualquer coisa que possamos necessitar. É um dia de louvação e não um dia de petições. Jejum, luto, demonstração de pesar são proibidos. O período de luto é interrompido pelo o schabat. E, se alguém visita um doente no schabat, a pessoa deverá dizer: “Hoje é schabat, é um dia em que a gente não deve se lamentar; logo estará curado” [vii]. É preciso abster-se de trabalho penoso e grande esforço no sétimo dia, ate mesmo de esforço no serviço a Deus[viii]
Porque as dezoitos bênçãos não são recitadas no schabat? É porque o schabat nos foi dado por D'us para alegria, para o desfrute, para repouso e não deverá ser prejudicado por preocupação ou sofrimento. Se houver algum doente na casa devemos nos lembrar disto enquanto recitamos a benção: “Cure o doente”, e ficaremos entristecidos e sombrios no dia de schabat. É por esta razão que recitamos no schabat, depois das refeições , graças pedindo que “não haja tristeza ou perturbação no dia de nosso repouso” [ix], é um pecado ficar triste no dia de schabat[x].
Pois o schabat é um dia de harmonia e paz, paz entre o homem e homem, paz dentro do homem e paz com todas as coisas. No sétimo dia o homem não tem o direito de intrometer-se com o mundo de Deus, de mudar o estado das coisas físicas. É um dia de repouso igualmente para o homem e o animal.
Mas o sétimo dia é o sábado do Senhor, teu Deus: não farás nenhuma obra nele, nem tu, nem o teu filho, nem a tua filha, nem o teu servo, nem a tua serva, nem o teu boi, nem o teu jumento, nem animal algum teu, nem o estrangeiro que está dentro das tuas portas; para que o teu servo e a tua serva descansem como tu: Porque te lembrarás que foste servo na terra do Egipto, e que o Senhor, teu Deus, te tirou dali, com mão forte e braço estendido; pelo que, o Senhor, teu Deus, te ordenou que guardasses o dia de sábado. (Dt 5:15-16).
*Texto Retirado do Livro O Schabat – Seu significado para o homem moderno (Pág. 43 á 49)


[i] Êxodo 20:9, 23:12, 31:15, 34:21, Levitico 23:3 Deuteronômio 5:13.
[ii] Mekilta de Rabi Schimeon bem Iohai, Ed.Hoffmann,Frankfut a.M, 1905 p.107.
[iii] Pirkei Avot 1,10.
[iv] Avot de Rabi Natan, Ed. Schechter, cap11
[v] Ver schabat 49b.
[vi] Rabi Isaiah Horowitz, Schnei Lukhot Há-brit, Frankfurt a.d. Oder 1717, p 131ª.
[vii] Schabat 12a
[viii] Rabi Scheschet costumava colocar seus estudantes num lugar exposto ao sol no verão, e num lugar abrigado no inverso, de modo que pudessem erguer-se rapidamente (quando lhes prelecionasse sobre o schabat). “Rabi Zera costumava procurar pares de estudiosos (empenhados em discussão erudita) e lhes dizia: Eu lhes peço que não o profanem (o schabat, ao negligenciar suas delicias e boas disposições)”. Schabat 119 a-b.
[ix]Sefer Hassidim, Ed Wistenetzki, Berlim, 1924, p 426; ver Jer Berakhot 5b
[x] Al Nakawa, Menorat Há-Maor, II,191

Um comentário:

Morit bat Yisrael disse...

Foi uma grande dádiva ler esse livro! Uma grande emoção encheu minh'alma,especialmente no trecho que diz:" Todo o schabat deve ser despendido em encanto, graça,paz e grande amor[...]pois, nele,até o perverso no inferno encontra paz",pois percebi o quanto maravilhoso é esse dia, e infelizmente,muitas vezes somos incapazes de reconhecer esse grande presente do Eterno para nossas são sufacadas vidas. O Schabat é uma das maiores bençãos recebidas.