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quinta-feira, 25 de novembro de 2010

Divindade do Messias


Por Rabino Joseph Shulam - Jerusalém, Israel.
www.netivyah.org
 

Introdução:

A divindade do Messias, é a mais importante e principal doutrina do cristianismo. Como judeu crente em Yeshua (Jesus), o homem de Nazaré como Messias (Mashiach) e filho de Elohim (1), eu me vejo a mim mesmo como ponte e união entre meus irmãos judeus e meus irmãos cristãos. Pela primeira frase deste escrito, poderemos notar a relação ambivalente que me coloco entre minha condição de judeu crente e entre a pessoa em sua condição de cristão. A ambivalência é algo que me alegra. E me alegra mais falar na linguagem do Segundo Pacto (2).


"Há um só corpo e um só Espírito, como também fostes chamados em uma só esperança da vossa vocação. Um só Senhor, uma só fé, um só batismo, um El e Pai de todos, o qual é sobre todos, e por todos e em todos." (Efésios 4.4-6).

O problema que se levanta diante de mim como judeu crente em Yeshua, não é de nenhuma maneira um problema que pertence a mim somente. Este problema é o resultado de dois mil anos de história cristã de perseguição e inimizade contra o povo de Israel, da qual eu não faço parte. Eu não vejo nenhuma relação entre a história cristã e a fé messiânica que tinham os discípulos de Yeshua na época do Segundo Templo, ou pelo menos com a fé que se descreve nas páginas do Segundo Pacto (Brit Chadashá ou Novo Testamento).


Aqui, começo este trabalho sobre a divindade do Messias a propósito com esta curta introdução: e isto com a intenção de dar a este trabalho o contexto que me dita a liberdade da Tradição Oral e os "Princípios da Fé", que foram escritos por sombrios sacerdotes da Idade Média e a época bizantina, os quais não levaram em conta os judeus. A "verdade" tem pelo menos duas caras, existe a verdade pessoal e subjetiva que tenho como judeu que vive na Terra de Israel, e também existe a verdade objetiva, posta a prova por toda pessoa que faz bom uso da razão e deseja conhecer a verdade. Minha fé se encontra exatamente no meio destas duas classes de verdade.


Antes de discutir o tema da divindade do Messias em si, seria bom se definíssemos a importância da fé em um Único Elohim, segundo o que nos ensina a Torá e os profetas, ao meu parecer, qualquer coisa que se opõe à Torá e aos profetas, não pode ser considerado relevante diante da palavra de D'us.


Não há outro mandamento mais claro nas Escrituras como o preceito e obrigação da fé em um só Elohim, o Elohim de Israel, o Elohim de Abraão, o Elohim de Isaque e o Elohim de Jacó. A oração do "Shemá Israel" (3) é o principio mais importante das Sagradas Escrituras, e não há forma de explicar a "Shemá Israel" de tal modo que se possa mostrar que existe mais de um Elohim, no qual o povo de Israel tem permitido crer N'Ele, prostrar-se diante D'Ele ou glorificá-lo.


Vejamos como são claras as palavras do Profeta Isaías:


"Eu sou o Senhor, e não há outro; fora de mim não há D-us; eu te cingirei, ainda que tu não me conheças. Para que se saiba desde o nascente do sol, e desde o poente, que fora de Mim não há outro: Eu sou o Senhor, e não há outro. Eu formo a luz, e crio as trevas; eu faço a paz, e crio o mal; eu o Senhor, faço todas estas coisas. Destilai vós, céus, dessas alturas, e as nuvens chovam justiça; abra-se a terra, e produza-se salvação, e a justiça frutifique juntamente; eu o Senhor as criei". (Isaías 45.5-8).


A meu ver, somos proibidos de nos assegurar e manifestar-nos contra os princípios da Torá e os Profetas. A tradição cristã não tem mais autoridade que as Sagradas Escrituras, e nós devemos ter o cuidado de não delegar autoridade à tradição cristã em qualquer aspecto, para que as divisões e guerras de religião que existiram e existem no cristianismo possam chegar também ao povo de Israel; dividir-nos-iam, separariam e distanciariam do próximo e do coração do nosso povo.


Por outro lado, há também no Tanach (Antigo Testamento) textos como estes:


"Quem subiu ao céu e desceu? Quem encerrou os ventos nos seus punhos? Quem amarrou as águas na sua roupa? Quem estabeleceu todas as extremidades da terra? Qual é o seu nome, e qual é o nome de seu Filho, se é que o sabes? Toda a palavra de D-us é pura; escudo é para os que confiam N'Ele"( Provérbios 30.4-5).


"Mas eles foram rebeldes, e contristaram o seu Espírito Santo; pelo que se lhes tornou em inimigo, e ele mesmo pelejou contra eles. Todavia se lembrou dos dias da Antigüidade, de Moisés, e do seu povo, dizendo: Onde está aqueles que os fez subir do mar com os pastores do seu rebanho? Onde está O que pôs no meio deles o Seu Espírito Santo?" (Isaías 63.10-11).


Nós vemos no Tanach, a realidade de todos os componentes (que envolvem o termo) de Elohim: O Pai, o Filho e o Espírito Santo. Muito antes de começarmos com as escrituras do Segundo Pacto, como judeus devemos nos confrontar com estes e outros textos que se encontram no Tanach. A estas palavras dos profetas, devemos responder claramente, dentro da fé de que Elohim é Um e dentro de um marco judeu. Assim também, nós devemos prestes muita atenção à conjugação dos verbos no plural quando Elohim fala, por exemplo:


"E disse D-us: Façamos o homem à nossa imagem, conforme a nossa semelhança; e domine sobre os peixes do mar, e sobre as aves dos céus, e sobre o gado, e sobre toda a terra, e sobre todo réptil que se move sobre a terra" (Gênesis 1.26).


"Eia, desçamos e confundamos ali a sua língua, para que não entenda um a língua do outro. Assim o Senhor os espalhou dali sobre a face de toda a terra". (Gênesis 11.7-8).


"Porque um menino nos nasceu, um filho se nos deu; e o principado está sobre os seus ombros; e o seu nome será: Maravilhoso, Conselheiro, El forte, Pai da Eternidade, Príncipe da Paz. Para que se aumente o seu governo e venha paz sem fim, sobre o trono de Davi e sobre o seu reino, para estabelecê-lo e firma-lo mediante o juízo e em justiça, desde agora e para sempre; o zelo do Senhor dos Exércitos fará isto". (Isaías 9.6-7).


Vemos aqui, que nós devemos esclarecer e explicar a pergunta que brota da mesmo Tanach, e continuar nosso caminho pelas palavras do Segundo Pacto, e à figura, caráter e natureza do Messias.


Mas, para resumir o que vimos anteriormente, devemos dizer umas poucas palavras.


Elohim é Um! De nenhum modo existe outra unidade como Ele. Somente Ele foi, é e será nosso Elohim!

 
 

Tem um filho!


Este filho, segundo Isaías, devia nascer para nós, o povo de Israel!


Este filho que nasceu para o povo de Israel, tem títulos ou graus muito elevados, que nenhuma outra pessoa tem em todas as Sagradas Escrituras. Nunca houve um rei de Israel que tivesse o título de "El forte", e/ou "Pai da Eternidade". E a exegese deste versículo, que é aceita entre nossos irmãos ultra-ortodoxos, de que o profeta Isaías se referia ao Rei Ezequias, não pode resistir e manter-se diante do exame da simples lógica.


Existem lugares onde claramente se vê que o Hakadosh Baruch Hú, associa a alguém em coisas muito essenciais como é a criação do homem e a geração da diáspora (Galut).


Conteúdo:

Os descobrimentos escritos no Segundo Pacto (Novo Testamento).


O Messias nasceu de forma sobrenatural, por meio do Espírito Santo. Devemos dizer que o nascimento em questão, não aparece no Tanach. Mas todos os poderosos da Fé que aparecem no Tanach, nasceram de forma sobrenatural. Isaque nasceu de Abraão e Sara, quando de forma natural não podiam gerar filhos; no nascimento de Jacó também existe um milagre especial; no nascimento e principalmente no cuidado de Moisés, Elohim estava envolvido de forma direta.


No Livro de João, o Messias é chamado "A Palavra", "O Verbo"- "E Elohim era a Palavra" (João 1.1). Não há dúvida que dentro de um marco judeu da época do Segundo Templo, um homem não podia estar mais próximo da identidade de Elohim. No judaísmo pode-se mencionar diferentes pessoas com versículos que se referem a Elohim, isto se encontra com muita freqüência nos Midrashim. Quando veio a Jerusalém o Rabino de Satmer, colocaram um grande letreiro na entrada do bairro de Mea Shearim, que dizia: "Levantai, ó portas, as vossas cabeças; levantai-vos, ó entradas eternas, e entrará o Rei da Glória"! (Salmo 24.7). Sem dúvida alguma que isto se referia ao Rabino de Satmer; assim também não há dúvida que o versículo no Livro de Salmos fala sobre o Santo Bendito seja Ele, Quem é o Rei da Glória. Isto pode-se fazer no sentido figurativo, de forma metafórica, por meio da midrash (comentário e interpretação) somente. O nascimento do Messias, o assombro do povo com relação aos seus atos, as pequenas alusões e as não tão pequenas, como por exemplo, no Evangelho de João capítulo 1; 10.22; 21.28; no Livro aos Romanos 9.5, todas estas citações não dão a possibilidade de rejeitar a divindade de Yeshua o Messias, e principalmente nas palavras do enviado Shaul na Carta aos Filipenses 2.5-10 e aos Colossenses 2.9, que indicam que o Messias teve parte na Criação do mundo e no Principio do universo.


Todas as idéias do Tanach e do Novo Pacto, nos ensinam que o Messias é divino, as, no entanto, fica certa dúvida o que parece como uma contradição entre a Unidade do Hakadosh Baruch Hú (O Santo, Bendito Seja Ele) e a existência de outro ser que representa condições divinas, e títulos como "El Altíssimo", "Pai da Eternidade", além de ter uma série de qualidades e feitos divinos.


Tenho várias regras para poder explicar estas coisas, de tal forma que não saiam do marco da Torá e dos Profetas, e também que não contradigam as escrituras do Segundo Pacto.


1. A primeira regra que trago é a seguinte: "O emissário é igual ao que o envía". O significado geral desta regra está em um princípio no sentido literal desta frase. Quando uma pessoa ou Elohim enviam outra pessoa em seu nome, com sua autoridade e sua aprovação, o enviado chega a ser igual pelo menos de forma judicial, ou legal, em sua parte de responsabilidade com quem o envia. Um homem, inclusive segundo o judaísmo e a Torá, pode se casar com uma mulher através de um emissário, ele (o emissário) não se casará com a noiva, mas o noivo é quem contrairá matrimônio com ela, apesar dele não estar presente no lugar onde se realiza o casamento. Uma pessoa pode se ser culpada por um assassinato, apesar de ter somente contratado um assassino para fazer o serviço em seu lugar. Um profeta pode dizer: "Por isso vivo eu, palavra do Senhor, certamente por ter profanado meu Santuário com todas tuas abominações, te quebrantarei eu também; meu olho não perdoará nem terei misericórdia" (Ezequiel 5.11), o profeta fala como se ele mesmo é Elohim. E isto é pela regra do "emissário é igual ao que o envia".


2. A segunda regra que nos facilita explicar e entender a especial relação que existe entre o Messias e seu Pai que está nos céus, é o fato que na Torá também Moisés é chamado "elohim", vejamos em Êxodo 4.15-16 e 7:1. O significado destas coisas, e também dos versículos dos Salmos onde neles há frases como: "vós sois deuses ("elohim"), e todos vós filhos do Altíssimo" (Sal. 82.6), é que apesar de tudo, no Tanach há a possibilidade de chamar o homem de "elohim", sem ter que anular ou violar a Unidade de Elohim e Sua particularidade. Nós podemos dizer que o Messias é Elohim, no mesmo sentido que se vê na Torá, nos Profetas e nos Escritos. Mas ainda assim, nós devemos tomar cuidado ao dizer algo que dê alguma abertura à idolatria e a crença em vários deuses. O Segundo Pacto, é sem dúvida algo muito claro, temos um só Pai nos céus, e inclusive Yeshua diz e reconhece: "Ouvistes que eu vos disse: "vou, e venho para vós". Se me amasseis, certamente exultaríeis por ter dito: Vou para o Pai; porque o Pai é maior do que eu" (João 14.28).


3. A terceira regra é: a igualdade entre o Pai e Seu filho. Temos um número de versículos no Segundo Pacto e também nas Midrashim (Parábolas) que nos falam da igualdade entre Elohim e o Messias, o Primeiro Homem" (Adam Hakadmón). Vejamos na midrash como são parecidos o Santo, Bendito seja Ele, e o primeiro homem. "Disse o Rabino Hoshea: Na hora que o Santo, Bendito seja Ele, criou o primeiro homem, se confundiram os anjos adoradores e disseram em sua Presença "Santo", isto é parecido ao rei e um ministro que estavam na carroça e as multidões disseram ao rei "Dominu" (Senhor em latim) e eles não sabiam quem dos dois era o rei. Que fez o rei? Empurraram e tiraram o ministro fora da carroça e entenderam que ele era o ministro. Assim também foi a hora que o Santo, Bendito seja Ele, criou o primeiro homem, os anjos do Serviço se enganaram e disseram em sua presença "Santo" (Kadosh). O que fez o Santo, Bendito seja Ele? Fez cair sobre ele um profundo sono, e compreenderam tudo, que este era o homem, como está escrito: "Deixai-vos, pois do homem cujo fôlego está no seu nariz; porque em que se deve ele estimar? (Isaias 2.22 ). No Novo Pacto a igualdade entre o Messias Yeshua e seu Pai é muito clara (João5.19-29; 14.6-11).


"Crede-me que estou no Pai, e o Pai em mim (...)" (João 14.11), aqui Yeshua faz uma comparação entre ele e seu Pai que está nos céus. É muito claro que aqui há uma situação na qual Yeshua descreve sua autoridade nisto: que Ele esta no Pai e o Pai nEle. Não há possibilidade de uma discrição mais dinâmica da igualdade, a qual descreve que eles estão um dentro do outro, a meu parecer é a descrição mais alta da união entre o Filho e o Pai.


4. A quarta regra, que precisamos e podemos utilizar nas fontes de nossa tradição e explica a comparação até onde for possível nas palavras e idéias judaicas e não com conceitos cristãos, os quais são quase impossíveis de serem traduzidos ao hebraico sem que soem ridículos. Por exemplo, nos livros de oração ortodoxos se encontram o poema "Shir HaKavod"(Cântico de Honra). Este poema é recitado na oração de Mussaf nos dias de Shabat e de festividades. Eu desejo citar várias linhas deste poema e demonstrar como se depara o judaísmo com comparações e com as diferentes faces que tem Elohim nas Escrituras:


Te alegorizam, mas não segundo Tua realidade,

e eles te imaginam segundo Tuas proezas.

Te simbolizam em muitas visões, mas Tu es Único,

contendo todas as alegorias.

Vêm em Ti a Antigüidade e o poderio, e o

cabelo de Tua cabeça grisalho e negro ao mesmo tempo.



Antigüidade no dia do julgamento e poderio no dia da batalha,

como homem de guerra que tem muito poder.

O elmo da salvação Ele colocou em Sua cabeça,

A salvação para Ele, é Sua destra e Seu braço sagrado.

Com gotas de orvalho luminoso Sua cabeça é coberta,

Seus cachos são as chuvas da noite.


O que este cântico quer nos dizer, nos ajuda a introduzir o Messias no mundo do pensamento do judaísmo e as Escrituras, sem ter que se basear no mundo do pensamento dos pais da Igreja e o recente Cristianismo. Este poema foi escrito por Abarbanel. Ele foi um dos rabinos mais sagazes da polêmica entre os judeus e os cristãos da Espanha, e apesar disso, quando vemos todo o poema, não se pode deixar de conceber a idéia de que ele escreveu sobre o Messias. Vejam quantas semelhanças há, inclusive neste pequeno pedaço as alusões sobre a figura do Messias são muitas.


Nós devemos aprender algo do judaísmo sobre este tema. Há temas que são de muito interesse para discutir entre rabinos, mas não servem para as pessoas, inclusive podem ofender a mais simples, porque a pessoa simples não tem os instrumentos necessários para medir e introduzir temas tão difíceis como este em seu mundo. Por isso, há coisas como a relação entre a essência do Pai, o filho e o Espírito Santo, que é bom nos mantermos nelas e que as defendamos, porém não deveríamos saltar primeiro diante do judeu simples e impor-lhe uma montanha como barril.


E para terminar, acrescento as palavras de Shaul:

"Deles são os patriarcas, e também deles descende o Messias, segundo a carne, o qual é sobre todos, D-us (El) bendito para todo o sempre. Amém". (Romanos 9.5)

 
 

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(1) Elohim, El, Elohá, como está escrito, por exemplo, no primeiro capítulo do libro de Gênesis: "No princípio criou Elohim". Não utilizamos a palavra Deus em português, (anglosaxão God, alemão Gott), porque o significado da palavra se deriva de duas raízes linguísticas indoeuropeias: "div"que significa "brilhar", "iluminar", "dia", ou "céu" e da raiz thes em thessathai que significa "implorar", e desta procede o nome da deidade pagã Zeus; por outro lado, do conceito "div" se deriva a idéia de considerar ao céu "deus pai" e a terra como a "deusa mãe". (2) O Segundo Pacto, mais conhecido no mundo cristão como Novo Testamento. (3) Ver Deuteronômio 6.4.

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