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quarta-feira, 24 de novembro de 2010

PERSCRUTAR A TORAH da LITERATURA BÍBLICA AOS MESTRES DE ISRAEL


 


 


 


 


 

Elio Passeto, nds


 

Ratisbonne - Jerusalém


 


 


 


 


 

'Moisés recebeu a Torah do Sinai e a transmitiu a Josué, e Josué aos Anciãos, os Anciãos aos Profetas, os Profetas aos Homens da Grande Assembléia. Estes diziam três coisas : sede prudentes no julgamento, formai muitos discípulos e fazei uma cerca ao redor da Torah' 1.


 


 


 


 

O Objetivo deste artigo é apresentar, mesmo se de modo não exaustivo, uma prática que formou e nutriu o povo judeu durante a sua história : O MIDRASH - 2 (plural: Midrashim). O dinamismo existente entre a Palavra de Deus revelada e o seu processo contínuo de revelação no encontro que ocorre em quem nela busca, é o que caracteriza tal literatura. É dela que nos ocuparemos neste estudo. Trata-se de um ato que não pode ser reduzido a um mero sistema de interpretação, no qual cada momento é regulado e controlado, mas sim de uma relação amorosa entre Aquele que se dá,

revelando-se, e o homem que busca conhece-lo melhor 3.


 


 


 


 


 

1 - Mishna Abôt, 1,1.

2

- Note-se que alguns temas aqui desenvolvidos serão retomados por P. Lenhardt; não se considere uma mera repetição, pois o enfoque dos dois estudos é diferente.


 

3 - 'O Midrash não é um comentário científico da Bíblia, e nem um jogo com o texto. Mesmo não excluindo um certo prazer de jogar com as palavras, é, de todo modo, uma tentativa de penetrar mais profundamente na linguagem da revelação. Trata-se essencialmente de uma frequentação de fé no texto bíblico, com o objetivo de escutar Deus e entrar em comunicação com Ele. Pondo-se com cuidado na escuta do texto, prestando atenção até nos mínimos detalhes lingüisticos, procura-se sondar as profundezas da revelação, experimentar a continuada presença de Deus e convencer-se da solidez de suas promessas'. STEMBERGER, G., Il Midrash, Edizioni Dehoniane, Bologna, 1992, p.8.

 


 


 

É ato de fazer viver uma Palavra que se concretiza no encontro entre Aquele que a dá e o homem que a recebe.


 

O MIDRASH E SEU DESENVOLVIMENTO


 


 


 


 


 

É difícil determinar cronologicamente o nascimento do Midrash na história do povo judeu; a história que a ele se refere, já o apresenta como uma prática cujas raízes estão inseridas num passado distante. É possível que seu aparecimento deva permanecer impreciso historicamente, pois isto faz parte de um processo que se desenvolve conjuntamente com a revelação e com a consciência que o povo judeu adquiriu da Palavra de Deus em sua história.


 


 

No entanto, é possível estudar a importância do Midrash e seguir seu desenvolvimento já na própria Bíblia, percebendo a sua ulterior evidenciação nos Mestres de Israel.


 


 

O termo Midrash é empregado duas vezes no próprio texto da Bíblia; nos dois casos, trata-se de uma referência não a textos bíblicos propriamente ditos, mas a textos extra-bíblicos : "O resto dos atos de Abiá, seus feitos e seus atos estão escrito no comentário (Midrash) do vidente Idô" (2Cr.13,22). Uma segunda vez, no mesmo livro, 2Cr.24,27 : "...isso não está escrito no comentário ao livro dos Reis? (notar que a Bíblia de Jerusalém traduz : comentário (TEB) por "Midraxe").


 


 

Na realidade, a definição do termo Midrash é muito vasta. Vem da raiz DeRaSH que significa, entre outras coisas, buscar, pesquisar, examinar, estudar, expor, perscrutar, etc. Esta raiz é empregada na Bíblia com uma certa freqüência; recebeu significados vários, alguns com mudanças no decorrer do tempo, mas sempre girando em torno do conceito de busca, estudo, indagação. Reparemos, contudo, como neste movimento, que é aparentemente unilateral, existe ao mesmo tempo uma resposta, proporciona um encontro : "Buscai (DiR'SHu) o Senhor e vivereis..." (Am. 5,6); "...a vós que buscais (DoR'SHei) a Deus, que viva vosso coração" (Sl.69,33).

 


 


 

Esta indagação, progressivamente, se concentrará de modo exclusivo na Palavra de Deus (isto é, o texto da Escritura). Este processo não tem início somente quando a Bíblia está concluída, mas nela mesma já encontramos testemunhos :

'Os primeiros desenvolvimentos do Midrash devem ser procurados na própria Bíblia, e na literatura que lhe é correlata : versões, apócrifos, etc.' 4.


 


 

Os livros que vieram depois do Pentateuco o utilizaram como ponto constante de referência; os Salmos reinterpretaram os textos bíblicos já existentes; os Profetas legitimavam-se sucessivamente um ao outro.

Vejamos como o Sl.78 faz uma leitura da História de Israel, enriquecendo-a, contudo, com uma interpretação que lhe é própria.

Do mesmo modo, Ezequiel 16 interpreta a história do povo hebreu a partir de seu início, passando pelo Êxodo, o Sinai, a aliança, etc. Os livros das Crônicas fazem uma releitura sobretudo dos livros dos Reis. Em Sb.16, 6-7, é evidente a atualização do texto bíblico : "... que lhes recordava o mandamento de tua Lei. Com efeito, todo aquele que se voltava para ele era salvo, não em virtude do que via, mas graças a ti, o Salvador de todos". O texto é uma explicação e atualização teológica de Nm.21,9 no qual o enfoque, no entanto, é a serpente, meio que garante a cura : "Moisés fez uma serpente de bronze e a fixou numa haste; e quando uma serpente mordia um homem, este olhava a serpente de bronze e tinha sua vida salva".

A busca conduzida a partir do livro, Palavra de Deus, gera assim outros livros; estes também são Palavra de Deus. É um desabrochamento do ato original da Revelação. Não se trata de uma nova revelação, mas sim da única revelação que se renova. Esta busca concreta da Palavra de Deus é animada por um espírito que quer compreendê-la, explicá-la, torná-la compreensível à comunidade : "Buscai no livro do Senhor e lede..." (Is.34, 16). Percebe-se, neste espírito, como o estudo torna a Torah conhecida e viva na oralidade de sua interpretação.

Sem querer reduzir a tradução da Bíblia para o grego (a Setenta) a um Midrash, é legitimo, contudo, considerar esta versão como algo mais do que uma simples tradução. Percebemos nesta obra

o esforço de compreensão e de interpretação do texto, para dar-lhe, em grego, o sentido exato.


 


 

4 - BLOCH, R. Écriture et Tradition dans le judaisme, Aperçus sur l'origine du Midrash, in "Cahiers Sioniens" VIII,I, 1954, p. 23. - Traduzido para o português - Seminário de Sion - Ipiranga - SP.

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