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segunda-feira, 16 de julho de 2012

O termo “EL”, ou Elohim é algum nome pagão?


Por Sha’ul Bentsion

Como se sabe, uma leitura das Escrituras revela que Elohim não se agrada em ser chamado pelo nome de outras divindades (vide Os. 2:16-17). E isso inclui o termo “Deus”, que deriva de “Dyeus” (ou “Zeus” no grego), chefe do panteão greco-romano, e nada tinha a ver com o Elohim das Escrituras.

Todavia, alguns têm tentado afirmar que o Eterno não se importaria com tal coisa, pois as Escrituras o chamam de “EL”, que supostamente seria o nome próprio de uma entidade cananéia.

Este artigo se propõe a refutar este mito, demonstrando que a tese de que os israelitas chamariam a Elohim por meio de um termo pagão traz inúmeros problemas, conforme se segue.

O problema da influência incerta

O primeiro problema que logo de cara aparece é o da cronologia. Os acadêmicos seculares sempre supõem que a Bíblia foi influenciada pelas religiões cananéias. É raro encontrar no meio acadêmico a suposição contrária: a de que a revelação bíblica tenha influenciado outros povos adjacentes. Até porque a posição predominante no meio acadêmico é a de que a Torá tenha sido compilada nos tempos de Ezra (Esdras) e que portanto o texto bíblico não tenha a antiguidade que a própria narrativa dê a entender que tenha. Naturalmente, essa não é a posição dos que creem nas Escrituras.

Para que se tenha certeza de que o povo foi influenciado pelas adjacências, é preciso confirmar que outros povos já mantinham a prática em questão muito antes de Israel.

Porém, no caso em questão, isso não é necessariamente observável. Se cremos nas Escrituras, então é observável que o uso do termo “EL” aparece bem no princípio da narrativa bíblica:

“E Malki-Tsedek, rei de Shalem, trouxe pão e vinho; e era este cohen do El-Elyon.” (Bereshit/Gênesis 14:18)

Sabe-se que Avraham (Abraão) viveu pelo menos por volta de dois mil anos AC. E, nessa época, observa-se que Malki-Tsedek já cultuava a El-Elyon. Ou seja, o culto a El já existia e estava bem estabelecido cerca de dois mil anos AC.

Se Avraham (Abraão) tivesse sido abençoado por um sacerdote pagão, certamente isso não seria bem visto nas Escrituras. Nem tampouco faria sentido falar da ordem de Malki-Tsedek positivamente. Sendo assim, a Bíblia nos revela que Malki-Tsedek adorava ao mesmo Elohim que nós adoramos. Ou seja, cerca de dois mil anos AC, o termo EL já era usado para se referir ao verdadeiro Elohim.

A evidência arqueológica mais antiga que traz o nome EL em contexto pagão está em Tell Mardikh, na Síria, e aparece em uma das famosas tábuas de Ebla. Tais tábuas são datadas de dois mil a dois mil e quinhentos AC. Ao lado, uma imagem de uma das tábuas em questão.

Ou seja, não existe prova incontestável de que EL foi usado num contexto pagão antes de ser adotado como termo monoteísta.

Sendo assim, não é possível afirmar que foi o monoteísmo bíblico quem foi influenciado pela prática pagã. Pelo contrário, é igualmente possível estatisticamente que a revelação bíblica tenha influenciado a prática politeísta. Até porque a narrativa bíblica afirma que a revelação de Elohim começou na mesma Mesopotâmia.

A ideia de tomar da revelação bíblica e aplicar num contexto pagão não é sem precedentes. O próprio povo de Israel fez isso em Shemot (Êxodo) 32, ao fazer um bezerro de ouro e afirmar: “Este é teu Elohim, ó Israel, que te tirou da terra do Egito.” (Shemot/Êxodo 32:4)

Ou seja, se considerarmos que a Bíblia é verdadeira e que seus registros são precisos (e a arqueologia tem confirmado cada vez mais a veracidade bíblica), então os proponentes da tese de que a Bíblia tenha se apropriado do termo EL estão se baseando em uma hipótese inconclusiva do ponto de vista histórico. E esse é sequer o único problema dessa tese.

O problema da gramática questionável

Outro problema que existe é de cunho gramatical, e se encontra na suposição de que “EL” fosse um nome próprio, exclusivo a uma determinada deidade, e não um atributo do ser em questão.

Um exemplo disso é referir-se a Elohim como “o Eterno.” O termo “Eterno” é na realidade uma qualidade, um atributo de Elohim, e não um nome próprio. O fato de outras religiões dizerem, por exemplo, que suas respectivas divindades são eternas não invalida o fato de que Elohim é eterno. O fato de alguém dizer que Ogum é amoroso não nos impede de dizermos que Elohim é amoroso. O mesmo vale para termos como “O Senhor”, “O Messias”, etc.

Em artigo para a Encyclopedia Mythica sobre “Baal”, Alan G. Hefner diz o seguinte, baseado nas tábuas de Ras Shamra:

“Ba’al ainda é principalmente imaginado como uma deidade de fertilidade cananéia. O grande Ba’al era de Kena’an. Ele era o filho de El, o alto deus de Kena’an… Ba’al era o filho de El, ou Dagon, uma deidade obscura associada pelos hebreus à cidade filistéia de Ashdod.”

Todavia, sabe-se hoje que não havia uma única deidade chamada Ba’al. Sobre isso, a Enciclopédia Católica afirma:

“Uma palavra que pertence ao conjunto mais antigo de vocabulário semita e significa primariamente ‘senhor’ ou ‘proprietário’… Quando aplicada a uma divindade, a palavra Ba’al retinha a conotação de propriedade e era, portanto, assim qualificado. O documento fala, por exemplo, do Ba’al de Tiro, de Haran, de Tarso, de Herman, do Líbano, de Tamar, do céu. Além disso, diversos Ba’als tinham atributos diferentes.”

De fato, a Bíblia confirma isso, pois não só havia vários Ba’alim, tais como Ba’al-Peor (Dt. 4:3), e Ba’al-Zevuv (2 Re. 1:2) como ainda por cima usa o termo “ba’al” diversas vezes para se referir a homens que eram proprietários ou senhores de suas casas, de um campo ou de seus servos. (exemplos: Ex. 22:7, Jó 21:39, etc.)

O mesmo tipo de raciocínio vale, por exemplo, para o termo “Asherá”, também adotado pelos cananeus, entre outros. Fato é que os cananeus frequentemente chamavam a suas deidades por seus atributos e termos genéricos, e não por nomes próprios. E é exatamente o que acontece com o termo EL.

Não há nenhuma prova de que EL fosse um nome próprio exclusivo a uma deidade, mesmo dentre os sumérios e cananeus. Pelo contrário, há vários indícios de usos diferentes para o termo. Isso pode ser interpretado como um espalhar do culto àquela deidade, ou simplesmente um uso regular do atributo.

Os acadêmicos não são unânimes em afirmar que EL de fato seja um nome próprio necessariamente. Por exemplo, Mark S. Smith, chefe do departamento de Estudos Judaicos e Hebraicos da New York University afirma:

“… é preferível entender el guibor não como um nome próprio comum… mas como um título como qualquer outro dos títulos divinos… Neste caso, a palavra “el”, “deus”, pode não derivar do nome próprio El, mas representaria o substantivo genérico “deus.” (The Origins of Biblical Monotheism, pg. 135)

A tese de que EL fosse de fato um termo genérico é defendida inclusive por diversos teólogos e acadêmicos cristãos de renome, como M. James Sawyer, PhD em Teologia Histórica, que afirma: “EL: Este é o nome genérico para divindade no Antigo Oriente Médio.” (The Names of God)

O Unger’s Bible Dictionary afirma ainda, sobre a origem do termo:

“El é um nome genérico para deus em semítico do noroeste (hebraico e ugárico) e também é usado no Antigo Testamento para divindades pagãs e ídolos (Ex. 34:14; Sl. 81:10; Is. 44:10). O termo genérico original era ‘ilum; removendo a memação e a forma nominativa terminada em ‘u’ torna-se El em hebraico. A palavra é derivada da raiz ‘wl, ‘ser forte, poderoso’, significando ‘o forte.’…” (Unger’s Bible Dictionary, pg. 293)

Em outras palavras, não existe consenso entre os acadêmicos de que EL tenha em algum momento sido um nome próprio. É fato que algumas figuras importantes das divindades pagãs eram conhecidas como “EL”. Todavia, o fato de dizermos “o Senhor” por exemplo não faz do termo um nome próprio.

Ou seja, com base nas evidências históricas e arqueológicas do Antigo Oriente Médio, a questão de se EL era um nome próprio é, na melhor das hipóteses, bastante controversa.

O uso genérico do termo nas Escrituras

Embora a questão seja historicamente incerta, a Bíblia na realidade nos dá a certeza absoluta de que o termo EL não era um nome próprio.

Caso EL fosse um nome próprio – e pior – um nome próprio associado ao Eterno, a Bíblia jamais o utilizaria para se referir a homens, objetos, ou como partes de expressões idiomáticas. E isso acontece diversas vezes.

Fato é que quando consideramos o hebraico bíblico, o termo אל (EL) significa “poder” ou “poderoso.” Isso pode ser facilmente observado pelas próprias expressões bíblicas em que o termo aparece, quando não é usado para se referir ao Eterno.

Vejamos alguns exemplos:

Poder [el] havia em minha mão para vos fazer mal…” (Bereshit/Gênesis 31:29)

“…e até algumas de nossas filhas são tão sujeitas, que já não estão no poder [el] de nossas mãos; e outros têm as nossas terras e as nossas vinhas.” (Nehemiyah/Neemias 5:5)

Não deixes de fazer bem a quem o merece, estando em tuas mãos a capacidade [el] de fazê-lo.” (Mishlei/Provérbios 3:27)

“…porque está no poder [el] da sua mão!” (Michah/Miquéias 2:1)

Nos exemplos supracitados, o termo “EL” aparece unicamente significando “poder”, a capacidade que uma pessoa tinha de fazer alguma coisa. A compreensão dessas expressões é bastante clara.

Os montes foram cobertos pela sua sombra, e os mais altos cedros [arzei-el], pelos seus ramos.” (Tehilim/Salmos 80:10)

A ideia neste trecho é de que os cedros parecessem poderosos, frondosos, o que é semelhante ao exemplo anterior.

“…Quem entre os filhos dos poderosos [elim] pode ser semelhante a YHWH?” (Tehilim/Salmos 89:6)

Os mais poderosos [elei] dos fortes lhe falarão desde o meio do inferno, com os que a socorrem; desceram, jazeram com os incircuncisos mortos à espada.” (Yechezkel/Ezequiel 32:21)

Nestes últimos, vemos que o termo é aplicado (no plural) a pessoas que eram poderosas.

Portanto, o que deve ser entendido quando a Bíblia chama ao Eterno de “EL” é que literalmente as Escrituras estão dizendo que Ele é “O Poderoso.”

O fato do termo ser genérico é ainda confirmado pelo constante uso do mesmo em expressões compostas, como os exemplos abaixo:

El-Elyon (Gn. 14:18): Literalmente, o Poder/Poderoso das Alturas.

YHWH El-Olam (Gn 21:33): Literalmente, YHWH, o Poder/Poderoso Eterno. Ou ainda, YHWH, o Poder/Poderoso sobre [este] universo/século.

El gadol (Sl. 95:3): Literalmente, o Grande Poder/Poderoso.

haEl hakadosh (Is. 5:16): Literalmente, o Poder/Poderoso santo/separado.

E assim por diante…

Portanto, o uso de “EL” nas Escrituras para se referir a YHWH está longe de ser um nome próprio. Trata-se de um título, de uma forma de se referir a Ele como o poderoso. Aliás, não muito diferente do termo “Elohim”, que significa algo como “poder supremo.”

Não se pode dizer se tratar de um nome próprio, pois o termo também é aplicado frequentemente a outros elementos comuns do dia-a-dia.

Ou seja, a Bíblia não deixa nenhuma dúvida de que a tese de que EL possa ser um uso importado de um termo pagão para se referir a YHWH não tem nenhuma sustentação.

Conclusão

Pode-se observar que a teoria da importação do termo pagão EL não se sustenta, porque:

Não é possível afirmar que o politeísmo influenciou o monoteísmo. A recíproca é tão possível quanto, historicamente.

Não é possível afirmar que o termo EL seja de fato um nome próprio. Muitos acadêmicos concluem se tratar de um título genérico.

O hebraico bíblico usa o termo EL de forma genérica, e o aplica a homens e até mesmo objetos, o que não deixa dúvidas de que o termo não era um nome próprio.

Diante da total e completa insustentabilidade dessa teoria à luz da história, da arqueologia e, principalmente, das Escrituras, pode-se não apenas descartá-la, como ainda dizer afirmar com segurança que não é justa a comparação do caso com o termo Deus/Dyeus.

Diferentemente do caso de EL, que era um termo genérico e assim é usado nas Escrituras, Deus/Dyeus é um nome próprio, de uma entidade pagã.

Entidade essa, inclusive, que dentre outras coisas, foi chamada nas Escrituras de abominação desoladora, e em nome de quem inúmeros israelitas foram mortos e forçados a abandonar a Elohim:

No dia quinze do mês de Kislev, do ano cento e quarenta e cinco, edificaram a abominação da desolação por sobre o altar e construíram altares em todas as cidades circunvizinhas de Yehudá. Ofereciam sacrifícios diante das portas das casas e nas praças públicas, rasgavam e queimavam todos os livros da Torá que achavam.” (Macabim Alef/1 Macabeus 1:54)

“…um velho ateniense foi enviado pelo rei para forçar os judeus a abandonar os costumes dos antepassados, banir as leis de Elohim da cidade, macular o templo de Yerushalayim, dedicá-lo a Júpiter [Dyeus Pater – ie. Deus, o Pai] Olímpico.” (Macabim Beit/2 Macabeus 6:2)

Não queremos com isso dizer que aqueles que dizem “Deus” – especialmente os que o fazem por ignorância – estejam cultuando ao demônio. Apenas, advertimos através das Escrituras que isso é desvio, que desagrada a Elohim, e que devemos deixar tal prática. É uma questão de buscar a santidade, por amor a Ele.

Um comentário:

Anselmo Estevan disse...

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